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06 maio, 2014

Ticiana Villas Boas: A nova Rainha do Camarote?

(Foto: Divulgação)

A contradição presente no país que no mesmo momento em que crítica a maneira que a âncora do Jornal da Band vive, exalta o funk ostentação


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Por Diogo de Souza, para a Folha Social

Reflexões sobre ostentação no país do funk

Repercutiu durante esta semana a entrevista da jornalista Ticiana à revista Veja. Isso porque a apresentadora comentou sobre como aproveita seu padrão de vida luxuoso. Não deu outra. Logo, tabloides e certos sites reproduziram “a notícia”, com frases isoladas dela, buscando um viral. Um vídeo divulgado na internet, no melhor estilo Rei do Camarote - jovem que ficou famoso nas redes sociais após declarações, para a mesma revista, engrandecendo a gastança descontrolada- colaborou neste sentido. A associação foi imediata, a âncora do Jornal da Band seria a nova exibicionista, a “Rainha do Camarote”. Porém, são casos completamente diferentes por dois motivos: a apresentadora é bilionária, e o rapaz, não (apenas um esbanjador em festas); ela fez questão de enfatizar sua contenção com despesas, embora possua patrimônio para comprar de modo deliberado. Mas como disse algo fora do convencional virou assunto. Fato interessante, pois diz muito sobre a moda em vigor no Brasil: a ostentação, sobretudo devido a um segmento do funk, defensor desta prática.  Estas canções fazem muito sucesso principalmente nas periferias do país. 

Como entender essa contradição e a relação dos brasileiros com esse fenômeno?

  Do ponto de vista evolutivo, buscamos parceiros sexuais que demonstrem condições de prover segurança e boa herança genética aos nossos descendentes. Como não há uma maneira ideal de descobrir isso, aqueles que evidenciam melhor adaptação ao meio em que habitam, tendem a possuir maior facilidade em atrair o sexo oposto. Daí, decorre que muitos animais com atributos valorizados em seus habitats gostem tanto de exibi-los. Isso, em parte, explica a estima por jóias e porque as pessoas considerem tão importante, a princípio, a estabilidade financeira para constituir uma relação. Este último dado, porém, é criticado por uma abordagem ética: a sociedade é contrária aos relacionamentos que supervalorizem o dinheiro. Algo assim é considerado supérfluo, aliás, é desta forma que são definidas os indivíduos que adoram exibir seus bens materiais. Já pela perspectiva social, disfunções na relação homens e seus pertences podem relevar diversas coisas: reificação e o fetichismo de mercadorias, gerando a “coisificação” das relações sociais, ou seja, quando o semelhante importa de acordo com o que tem a oferecer, uma concepção do indivíduo como objeto, e exagerada adoração a produtos. Ainda há o fator da desigualdade social. O polêmico texto Ostentação deveria ser crime previsto no Código Penal, de Leonardo Sakamoto busca despertar esta reflexão: como ostentar em meio a tanta miséria extrema é algo glamoroso e admirável? Por fim, além destes elementos, há o componente histórico. Durante muito tempo, títulos de nobreza ou cargos estabeleciam um status social privilegiado a uma minoria. Ainda presenciamos resquícios disso, por exemplo, as chamadas “Carteiradas”, por meio das frases clássicas “Você sabe com quem está falando?” “ Sabe de quem sou filho ou conhecido?” também invocam posições de poder como justificadores de obtenção de vantagem ou prestígio.

  Se os guardas de trânsito multassem clichês...

Sendo assim, diversas perspectivas explicam o desejo de mostrar, com vanglória, atributos aos que nos cercam como características comuns nas pessoas, a tentação de ser pomposo. Entretanto, isso adquiriu grande impacto cultural com o “funk de ostentação”. Nele, jovens exaltam carrões, bebidas caras e festas em casas com piscina. Os carros são alugados, as bebidas fechadas ou apenas rótulos, e a casa é de um amigo ou do produtor do videoclipe, um desconhecido. Ao término da gravação, os grupos voltam para suas moradias humildes, rotina de ônibus lotado e jornada de trabalho de 44 horas semanais. Um ou outro consegue sucesso e a renda dos shows torna finalmente possível viver o que cantam. Curiosamente, jovens de classe média ou baixa formam o principal público destas músicas, logo aqueles mais distantes dessa realidade. Bem, para analisar isso vou precisar ser chato e buscar lições na sociologia. Anime-se, será rápido. (risos)

Segundo Karl Marx (criticado sempre que é citado, mas vá lá...): “a desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas”. É exatamente o que se percebe atualmente, o humano só se vê valorizado quando possui objetos de alto preço. É a máxima “você vale o que tem”. São dele também as referidas teses de reificação e fetichismo de mercadorias. Natural que estas teorias confirmem-se válidas em uma sociedade caracterizada como “de consumo”. Esperava-se que com a tecnologia nos tornássemos a sociedade do lazer, da cultura, mas a qualidade preponderante é adquirir produtos, justamente a que deveria ser a típica, elementar. Tudo porque falhamos em possibilitar efetivo acesso a serviços e riquezas. De tal forma que quando um consegue este que é o grande objetivo de todos e ostenta é ofensivo, criticado pelos demais que almejam a mesma posição. É exigido ser discreto. A lógica é a seguinte: consuma o vinho que vale uma casa, sonhe e persiga o vestido do valor de três cursos universitários, o sapato que custa dois carros populares, mas jamais diga isso em voz alta. Pois a declaração aberta induz a refletir sobre o todo, sobre a real falta de mobilidade social, sobre 2% dos mais ricos concentrando 50% da renda mundial, sobre como ser altamente rico e ostentar nos aproxima do pensamento medieval de que só privilegiados por nascimento e exceções alcançam esta condição. Enfim, sobre como reunimos tantos na produção de tão excedente riqueza, mas não temos distribuição que viabilize à maioria acesso e usufruto destes recursos. Ticiana e demais entrevistados nunca mais façam isso! Nunca mais dê uma mensagem que, por tabela, nos obrigue a pensar sobre a atual sociedade excludente. Porque agindo assim vocês provocam as 98% das pessoas restantes, nos faz sentir como os funkeiros que não deram certo, saindo da ilusão de que este sistema realmente concede rápida ascensão social, sempre premia pelo mérito, remunera justamente, é inclusivo. Não retirem a máscara, com sua ostentação, de que o capitalismo sempre será o sistema da marginalização e exclusão e não pode assumir outra forma. Vai que os demais passem a fazer mais do que reproduzir textos na internet e em lugar de pensar no “desvio pessoal”, contestem a fundo o porquê tão poucos possuem tanto.



Diogo de Souza é colunista e escreve para a Folha Social