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| Abertura da Campanha de Enfrentamento da Violência contra a Mulher, em Porto Alegre |
Estudo do Ipea mostra que a população não aceita violência doméstica, mas aceita discurso de que a vítima é quem provocar a agressão
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por Matheus Pichonelli, Carta Capital
“Se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros”. “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. “Tem mulher que é pra casar, tem mulher que é pra cama”. “Em briga de marido e mulher não se mete a colher”.
Frases como esta são aceitas, parcial ou totalmente, pela maioria dos brasileiros em pleno 2014. A conclusão, divulgada nesta quinta-feira 27, faz parte de uma pesquisa sobre tolerância social à violência contra mulheres realizada com 3.810 pessoas pelo Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
Segundo o mesmo estudo, ao menos um terço dos brasileiros aceita, total ou parcialmente, ideias como a de que a mulher casada deve satisfazer o marido na cama, mesmo sem vontade, ou que casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os integrantes da família.
O resultado mostra alguns pontos aparentemente contraditórios no discurso sobre violência doméstica no Brasil. Por exemplo: a grande maioria dos entrevistados (78%) concorda "totalmente" com a prisão de maridos que batem em suas mulheres e refuta a ideia de que a violência é apenas uma manifestação da natureza masculina (75%).
O paradoxo, segundo os pesquisadores, é apenas aparente. A começar pela dificuldade em desmascarar os perigos de considerar estas agressões uma questão privada a ser resolvida na intimidade dos lares. Para 82% dos entrevistados, o que acontece com o casal em casa não interessa aos outros” – portanto, tem menos possibilidades de ser verbalizado e tratado como crimes. É aí que mora o perigo.
No discurso, o brasileiro tende a condenar veementemente a violência, física ou psicológica, mas ainda tem dificuldades em dissociar esta violência de um conjunto de normais socialmente aceitas. Esta dificuldade se revela sobretudo quando o tema é violência sexual. A diferença de postura de tolerância/intolerância à violência doméstica e à violência sexual, dizem os pesquisadores, reafirma a dificuldade de se estabelecer no Brasil uma agenda de direitos sexuais.
“Por maiores que tenham sido as transformações sociais nas últimas décadas, com as mulheres ocupando os espaços públicos, o ordenamento patriarcal permanece muito presente em nossa cultura e é cotidianamente reforçado, na desvalorização de todas as características ligadas ao feminino, na violência doméstica, na aceitação da violência sexual”, conclui o estudo.
Segundo os pesquisadores, a ideia culpabilização da mulher pela violência sexual ficou evidente no estudo (a afirmação que confere o estupro à incapacidade de a mulher se comportar de forma adequada chega a 58% dos entrevistados, por exemplo). “Por trás da afirmação está a noção de que os homens não conseguem controlar seus apetites sexuais; então, as mulheres, que os provocam, é que deveriam saber se comportar, e não os estupradores. A violência parece surgir, aqui, também, como uma correção. A mulher merece e deve ser estuprada para aprender a se comportar. O acesso dos homens aos corpos das mulheres é livre se elas não impuserem barreiras, como se comportar e se vestir ‘adequadamente’”.
Esse retrato tem como base a aceitação de um modelo que coloca o homem e o masculino como “referência” em todos os espaços sociais. Neste modelo, são os homens quem detêm o poder público e o mando sobre o espaço doméstico, portanto sobre os corpos e vontades das mulheres. Essa ideia fica evidente, por exemplo, quando 64% dos entrevistados dizem que “os homens devem ser a cabeça do lar” ou quando 79% afirmam que “toda mulher sonha em casar” ou quando 60% concordam que “uma mulher só se sente realizada quando têm filhos”. Parece uma frase ingênua, mas não é. Por trás da afirmação, apontam os pesquisadores, está a ideia de que a mulher somente pode encontrar a plenitude em uma relação estável com um homem – ou que depende de um companheiro que a sustente ou que deve ser recatada e não almeja uma de solteira com muitos parceiros. Essa ideia, segundo o estudo, tem influência marcante da religião: católicos têm 1,5 vezes maior de concordar com a afirmação de que toda mulher sonha em casar; os evangélicos, 1,8. O índice cai, no entanto, entre grupos mais escolarizados. “Aqueles que consideram que o homem deve ser a cabeça do lar têm uma propensão maior a achar que a mulher é responsável pela violência sexual”, escrevem os autores.
Há uma tendência, no entanto, de discordar da ideia de que a mulher deve satisfazer as vontades do marido – o índice dos que refutam essa ideia (65%) é maior do que as que aceitam total ou parcialmente (41%). “Essa afirmação coloca subliminarmente a delicada questão do estupro no âmbito do casamento, um tabu resultante do confronto entre os comportamentos e desejos sexuais femininos e masculinos.”
Foto de Cristine Rochol/ PMPA
