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06 fevereiro, 2014

O caso de Woody Allen e a deslegitimação da vítima

Dylan Farrow e Woody Allen (Foto: Divulgação)

No último sábado (1), Dylan Farrow, filha adotiva de Woody Allen, expôs sua história ao mundo. Colocou em uma carta o abuso que alega ter sofrido de seu pai e também toda a dor que isso acarretou em sua vida (...)


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Por Nathália Lausch*

Esqueçam Woody Allen

No último sábado (1), Dylan Farrow, filha adotiva de Woody Allen, expôs sua história ao mundo. Colocou em uma carta o abuso que alega ter sofrido de seu pai e também toda a dor que isso acarretou em sua vida – traumas, distúrbio alimentar, problemas ao se relacionar com homens, etc.  Dylan teve coragem de explicitar seus traumas e a forma como esse ocorrido mudou sua vida. 

Não podemos dizer com todas as letras que Allen é culpado, isto seria uma acusação infundada. Mas também não podemos ignorar as palavras de Dylan, que após 20 anos mantém sua história firme e teve força o bastante para tocar em um assunto tão delicado, sabendo que seria deslegitimada novamente. Ignorar o relato de Dylan é ignorar não somente ela como vítima de uma sociedade machista, mas também ignorar todas as outras vítimas de abuso que são diariamente silenciadas. Silenciadas, pois caladas nunca estarão. Quem se cala é a pessoa conivente com tudo isso, é a pessoa que diz “foda-se, Woody Allen continua sendo um diretor fantástico”. Ela se cala diante da sociedade patriarcal, ela se cala diante dos abusos, ela se cala diante dos estupros e amordaça a vítima, deixando-a à mercê de uma sociedade doente que compactua com sua inferiorização e culpabilização.

Os fãs fervorosos de Allen tentam de  todas as formas possíveis defendê-lo, mesmo não existindo evidências de sua inocência. Não há nada que comprove sua culpa, mas também não há nada que nos dê certeza de que ele é inocente. Então me pergunto, por que não levar em conta o que Dylan falou? Por que não pensar no lado da vítima? O que há de tão divino em Woody para que ele seja tão digno de defesa assim? Todos nós sabemos que, a esta altura do campeonato, mais de 20 anos depois, ele não será preso ou acusado formalmente de nenhum crime. Sua vida continuará a mesma, sendo ele um pedófilo ou não. Mesmo na época, nada aconteceu, as provas foram suprimidas, o laudo médico de Dylan foi destruído... então de onde surge esse ímpeto de advogá-lo? Pensem nisso. Reflitam. Por que precisamos defender um homem que já é privilegiado em todos os sentidos? 

Para finalizar, proponho uma inversão. Assim como esquecem que Dylan é uma mulher que manteve seu depoimento de abuso firme durante 20 anos, esqueçamos a fama e o dinheiro de Woody Allen. Sendo ele um cineasta famoso ou não, continua sendo suspeito de pedofilia – e provavelmente sempre será tido como “suspeito”. Infelizmente, nunca saberemos a legítima história de Woody Allen e Dylan Farrow pois a fama de Allen interferiu diretamente no julgamento e na investigação. A romantização de seu status fez com que as denúncias de Dylan fossem deixadas de lado; fez com que sua voz fosse silenciada, suas palavras apagadas, suas memórias desmentidas. Por isso, reitero: esqueçam quem é Woody Allen. Lembrem do fato de que ele é um suspeito de pedofilia. Lembrem de que somente 0,6% das acusações de estupro são falsas. Lembrem de que existem vítimas sendo diariamente rechaçadas quando denunciam seus agressores. Independente de acreditarmos na culpa de Allen, isto não interfere na vida dele de nenhuma forma. Isto não tem consequências em sua obra ou em seu prestígio como diretor. Agora, deslegitimar o discurso da vítima traz, sim, sérias consequências emocionais e psicológicas. Enquanto Allen se mantém no topo, com seu prestígio e seus privilégios, Dylan ainda tenta escavar o buraco em que enterraram sua voz. 

Esqueçam Woody Allen. 



Nathália Lausch é colunista e escreve quinzenalmente para a Folha Social